Ecce Homo – Ragusa

pe. giovanni, fidei donum

Clarissas de ontem e de hoje. Edificadoras da Igreja

clarissas
Estamos vivendo os urgentes tempos  da evangelização, da nova evangelização, da restauração da Igreja à  maneira de Francisco,  por meio do evangelho da pobreza e da fraternidade no mundo da gastança, das oscilações das bolsas, das crises econômicas, da imanência, do aqui e agora. Clara e suas irmãs de ontem e de hoje estão conscientes de serem enviadas a construir a Igreja mesmo permanecendo no exíguo espaço de suas casas. O texto que se segue é da autoria da clarissa escritora Maria Victoria  Triviño que apareceu no livro “La via de la beleza. Temas espirituales  de  Clara de Asis”,  BAC  Madrid, 2003, p. 58-61.

Nas profecias feitas por Ortolona e por Francisco, com relação a Clara, hauridas do Evangelho, já está dito tudo. A missão de Clara e de toda mulher franciscana é ser luz do mundo, como uma cidade colocada no alto de um monte. Em outras palavras, espelhar a glória de Deus por sua vida. Clara explica-o como um jogo de espelhos:

“O próprio Senhor nos colocou não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também para nossas irmãs,  que ele vai chamar para nossa vocação, para que também elas sejam espelho aos que vivem no mundo. Portanto, uma vez que o Senhor nos chamou para coisas tão grandes, que em nós possam se espelhar aquelas que são espelho e exemplo para os outros, muito temos de bendizer e louvar a Deus e confortar-nos mais amplamente ainda no Senhor para fazer o bem”  (TestCl  19-22).

As irmãs de São Damião foram espelho para todas as fraternidades das senhoras pobres; e estas, por sua vez, espelho e exemplo para o mundo. Desta forma, afirma Clara que “serão bem-aventuradas” e deixarão “nobre exemplo”.

O mandamento novo brilhava  na fraternidade (sororidade) de São Damião. Dali o brilho alcançava os frades menores, os eclesiásticos, a todas as pessoas, tanto as de condição nobre como  os pobres. Tratava-se do amor de santa unidade que tornava visíveis os vínculos do Espírito. Clara  não somente frisou o amor mútuo como queria que ele se tornasse visível:  “Manifestai exteriormente esse amor que interiormente vos anima”.

A mensagem profética de Clara não perdeu sua atualidade. Neste século  XXI convivem fé e indiferença, a ambiguidade dos costumes, surgem novas formas de liberdade incontrolada, por todas as partes penetra o sincretismo religioso. Não se pode ficar no meio: crer um pouco e duvidar um pouco de tudo. Será fundamental acreditar naquele que disse: “Eu sou a luz do mundo, não anda nas trevas, mas tem a luz da vida”(Jo 8,12).

A questão é esta: Como ser espelho? Como pode a mulher franciscana dar um belo exemplo em nossa sociedade secularizada?  “A fé é uma opção existencial, quer dizer uma opção radical e firme que é, ao mesmo tempo, dom e ato livre. Essencial detectar as formas infantis e imaturas de se viver a experiência de fé. Por vezes, a fé pode se manifestar como um grito desesperado e como fuga. A fé  cristã não é fuga, mas afirmação do sentido do mundo e da história a partir do acontecimento Cristo” (F.Torralba). Trata-se de mostrar a esta sociedade a dimensão transcendente e  inefável do cristianismo. Tornar esta experiência compreensível na linguagem de hoje, que privilegia a  imagem, o símbolo, a expressão corporal, a parábola, no final das contas, a estética.

Não convence um testemunho de pobreza sem sabedoria. Não atrai uma celebração sem beleza. Não se entende uma liturgia sem a vibração da presença. As solicitações dos buscadores de hoje não são tão diferentes da resposta francisclariana da primeira hora.

Outra solicitação de nossa época é a de saber onde seja possível estabelecer relacionamentos interpessoais verdadeiros e harmoniosos, cordiais e fraternos. Nada deseja tanto a pós-modernidade como a segurança, a  paz e o aconchego de relacionamentos humanos. Para tanto, muitos buscam a intimidade do pequeno grupo, as seitas onde se sentem acolhidos. Nossos contemporâneos não se sentem atraídos por grupos a grandes dimensões onde a pessoa venha a se perder no anonimato e assista passivamente a tudo. A pessoa gosta  do grupo pequeno quando é conhecida pelo nome e tratada com amabilidade.

Nossa sociedade pós-moderna e secular busca o que perdeu: “Deu primazia absoluta à espontaneidade, ao coração, ao sossego, à vida tranquila e serena no mundo, à finitude que é tempo, mas que tem em sua entranha um leve resplendor de eternidade, à degustação da beleza que nada exige e a ela se entrega totalmente, ao fragmento e ao instante, ao pequeno grupo que reflete para fora o seio materno. Diante do anonimato da grande sociedade, liga-se à tribo própria  frente ao mundo grande e distante. A partir daí conseguiu recuperar algumas dimensões de Deus: Deus como Pai sem absolutismos, a Encarnação como kénosis, a experiência do Espírito como constitutivo da Igreja, o perdão como fruto do amor que se  nos outorga e não como consequência do próprio arrependimento. Deus como gratuidade absoluta  (…)  Acentuando estes aspectos, contudo, esquece outras dimensões também essenciais do homem e de Deus, como são a divindade de Deus que não é senão outro nome para a majestade, sua santidade como medida e peso de nossa existência, seus desígnios sobre o mundo”  (O.González  de Cardenal, La entraña  del cristianismo, Secretariado Trinitario, Salamanca 1999 p.  335-336).

O teólogo que citamos chama atenção para aquilo que nossa sociedade busca e aquilo que não anda levando em consideração. Esquece-se da transcendência e do chamado à santidade. Ora, é missão da mulher franciscana mostrá-lo.  Não importa que se tenha reduzido o número de nossas  comunidades. Importa refletir em nossa vida a glória do Senhor para dar ao mundo aquilo de que ele necessita.

A vida contemplativa, em si mesma, é um testemunho total da existência e da transcendência divina. Por vezes,  as pessoas piedosas pensam que as religiosas contemplativas se reúnem em seus mosteiros tão somente para “rezar pelos ouros”. Nisso se resumiria sua vida. Outras pessoas, não tão piedosas, se interrogam a respeito da utilidade desse tipo de vida. Para que servem? O que fazem em seus mosteiros?

Se compararmos nossa forma de vida contemplativa com as irmãs dedicadas às obras de misericórdia  na vida ativa, certamente nossa vida é inútil, improdutiva para a sociedade de consumo. Não temos que ficar justificando nossa vida nesse nível, embora façamos muitas coisas úteis. Nossos argumentos não justificam nada. Exatamente a “inutilidade” de nossa vida, torna-a testemunho e denúncia. Como o precioso perfume de nardo derramado por Maria nos pés do Senhor  ninguém  “derrama”  sua vida senão por alguém que existe e merece todo amor.

Quando acontecer que alguém pergunte: “Para que serve a vida das clarissas?” respondam :  “Para que você creia que Deus existe”.  Se tiverem coragem, digam: “Para que você veja o esplendor da glória de Deus”.

Muitas pessoas que nasceram no século XIII  não deixaram traços. Clara superou a prova do tempo. Como Francisco de Assis, ela não perde a atualidade. Seu segredo para não envelhecer  é o Evangelho.

 Frei Almir Ribeiro Guimarães

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