Ecce Homo – Ragusa

pe. giovanni, fidei donum

Um pastor na gruta de Belém

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Dom Murilo S.R. Krieger, scj – Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

Ela não sabe que eu não tenho jeito, que nunca tive jeito para pegar criancinhas recém-nascidas. Nem meus filhos eu sabia segurar direito, quando tinham essa idade. Bem que minha mulher repetia, cada vez: “Cuidado! Não é assim que se pega!” Sempre cuidei de ovelhas e elas, mesmo quando pequenas, são mais pesadas e duras que uma criança.

Minhas mãos estão cheias de calos; ou por causa do cajado que levo sempre comigo, ou pelo por tudo o que precisam carregar, cada dia. Por isso, quando a Mãe do Menino – Maria, dissera-me José -, quando tirou seu filho da manjedoura, dando-me a entender que ia colocá-lo em meus braços, minha vontade foi de lhe dizer: “Desculpe-me, mas não vou pegá-lo! Não tenho jeito, pois sou apenas um pastor!” O gesto dela, porém, foi mais rápido do que meus pensamentos: ainda pensava como começar a desculpar-me, e ela já havia colocado a criança no meu colo.

Não é possível: eu, um pastor, segurando nas mãos o “Salvador, o Cristo Senhor”, como dissera o anjo. Por sinal, quando ele apareceu para mim e para meus companheiros, deu-nos um sinal a respeito do Menino que nasceu para nós, na cidade de Davi: “Encontrareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura” (Lc 2,12).

É este, não há dúvida. Mas é apenas uma criança, muito parecida com meus meninos, quando nasceram! Como é que o Filho de Deus pode ser assim – isto é, uma criança igual a tantas outras? E porque nasceu aqui, nesta gruta? Bem, se o anjo nos tivesse mandado ir a um palácio para ver o Salvador, nunca que eu iria lá e, certamente, nem meus companheiros. Quem deixaria um pastor como eu entrar num palácio? Com estas roupas? Mesmo que fosse, não teria coragem de levar o presente que trouxe aqui. Vi que, quando dei para Maria e José a única coisa que tinha comigo – o lanche que minha mulher preparara para esta noite -, me agradeceram tanto que parecia que lhes tinha dado o presente mais bonito e rico do mundo. Ia até pedir-lhes desculpas por não ter coisa melhor para oferecer-lhes, mas eles, parecendo saber o que ia lhes dizer, não me deixaram falar. Perguntaram-me se não queria tomar chá – e nesta noite fria, quem é que iria recusar?

Esta criança é o Filho do Altíssimo! Quando apareceram para nós e cantaram, os anjos nos falaram que os homens e as mulheres são amados por Deus. Ele deve nos amar muito mesmo! Eu não daria nenhum de meus filhos, nem para meu maior amigo, nem por todas as riquezas do mundo! E Ele está nos dando seu único Filho! É meu! Está aqui em minhas mãos! Tenho direito de dizer que é meu, pois o anjo falou claramente: “Nasceu para vós o Salvador!” Acho que é por isso que sua Mãe não está preocupada com minha falta de jeito, com meu braço duro e minhas mãos pesadas: sabe que tenho o direito de segurá-lo.

Vejo a impaciência de meus colegas pastores: também eles querem pegar o Salvador nas mãos. Tudo bem, vou entregá-lo. Afinal, ele nasceu também para eles. Mas a alegria que sinto por estar aqui, nesta noite, vendo o que estou vendo, essa alegria nunca, ninguém, vai me tirar, jamais! Ao contrário, farei questão de levá-la para todos os lugares em que for, para todas as pessoas que encontrar. Vou sair por aí, glorificando e louvando a Deus, por tudo o que estou vendo e ouvindo (cf. Lc 2,20). Pelo que conheço de meus colegas, não louvarei e glorificarei sozinho este Deus maravilhoso que, nunca tinha pensado!, é Pai! Ninguém vai conseguir calar a minha voz. Afinal, poderei dizer que o Salvador, o Cristo Senhor, esteve em minhas mãos: pude beijá-lo e acariciá-lo, e até lhe falei baixinho. Ele pode não ter entendido minhas palavras, mas vi que Maria e José escutaram e sorriram, quando lhe disse: “Jesus, eu te amo!”.

Agora estou entendendo o que quer dizer Emanuel: é Deus conosco! Antes eu sabia; agora, experimento em meu coração. Deus está comigo, está conosco, enche minha vida de esperança e de sentido. Deus-conosco, Deus-amor! É isso que estou descobrindo! Daqui para a frente, direi, tantas vezes quantas puder: Deus está no meio de nós! Ele tem o nosso rosto e nos ama! Ele veio para nos salvar! Glória a Deus no céu! Paz na terra aos homens que Ele ama!
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