Ecce Homo – Ragusa

pe. giovanni, fidei donum

Não foi a fome que matou Rosa, foi o descaso.

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Rosa de Moçambique

23/07/2010 | Tatiane Silveira Soares *

Quantas Rosas ainda terão que morrer nesta terra até que haja uma verdadeira luta contra a fome?

Vi Rosa chegar ao Hospital de Moma nos braços de sua mãe que percorreu quilometros a pé movida por uma esperança inquebrantável de salvar a vida de sua filha. Buscar socorro num hospital que não possui recursos básicos para atender aos enfermos. Há meses está em reforma. Os doentes foram alojados em barracas de lona do UNICEF. O local é imundo, camas sujas, cheiro insuportável, baratas por todo lado. Falta de medicamentos. Ambulâncias em eterno conserto. Carência de recursos humanos. Foi neste lugar que Rosa morreu. Morreu desnutrida e sem desvelo algum. Não teve uma vida digna! Não teve o direito de lutar pela vida! Não foi a fome que matou Rosa, foi os olhos cerrados de quem finge ou não quer ver a deterioraçao da vida humana em Moçambique. Foram os braços cruzados de quem pode fazer a diferença e mudar essa situação. Não foi a fome que matou Rosa, foi o descaso.

Durante sua viagem pelo norte de Mocambique (princípio deste ano), os discursos do Presidente Armando Guebuza eram carregados de palavras ocas sobre o empenho do governo em combater a pobreza do povo moçambicano. Em Moma, foi acolhido pela população com as ruas ornamentadas por cartazes que ostentavam frases prontas inspiradas em seu palavriado fastidioso. Enquanto muitas mães, com os filhos nas costas, percorrem de pés descalços pelas péssimas estradas do país rumo aos hospitais o presidente sobrevoa a miséria do povo realizando uma chegada pomposa acompanhado de sua comitiva, em 7 helicópteros.

Durante sua breve estada na Vila de Moma, Guebuza foi levado para vislumbrar a reforma do hospital. Ele transitou pelos corredores vazios da construção. Nem por um segundo ergueu a vista para as barracas que abriga os desvalidos que agonizam naquele lugar lastimável. Será que Armando Guebuza não perguntou onde estavam os doentes? Ou então ele imagina que não há enfermidades nesta regiao do país? Porque as autoridades locais perderam a oportunidade de apresentar as dificuldades que o distrito enfrenta na área da saúde?

É sabido que Moçambique faz parte do grupo de países mais subdesenvolvidos do mundo. Estudos apontam que a expectativa de vida é de 46 anos enquanto a mortalidade infantil é elevadíssima. Doenças como a malária, a cólera e o HIV/Aids maltratam o povo. O país carece de infra-estrutura, de estradas asfaltadas, educação de qualidade, sistema de saúde adequado. Somado a tudo isto, a fome massacra a população pobre. Moçambique continua a ser um país exportador de matérias-primas. Possui um setor indutrial incipiente, necessitando, assim, importar produtos alimentícios básicos, em sua maioria da África do Sul. O orçamento do estado moçambicano é financiado em torno de 50% pela ajuda externa.

Neste ínterim, diante da situação calamitosa que grande parte da população moçambicana se encontra, é obsceno o poder público se dar ao luxo de pagar USD$ 2.000,00 por hora, a uma empresa, pelo aluguel de cada um dos 7 helicópteros que serviram para o conforto e bem estar do presidente e de sua comitiva. O povo moçambicano está tendo seus direitos pisoteados por uma minoria que apoderou-se do poder político e econômico, usufruindo-o em benefício próprio.

Falar de direitos humanos e não escutar o povo é uma farsa. Estou convencida que não se conhece as mazelas do povo sem caminhar do seu lado. Paulo Freire já dizia que o verdadeiro revolucionário não luta pelo povo, mas luta com o povo. Esta é a questao primordial que se coloca.

Rosa, pequena, indefesa. Não tinha mais do que dois anos, penso. Mal conseguia abrir os olhos e forças lhe faltavam para manter o pescoço firme. Dispensável falar de sua magreza. Mas chorava, muito. De fome, de dor… não sei. Era um choro, acredito, em busca de socorro, de luta pela vida.

Moçambique possui muitas outras ‘Rosas’ que poderiam enfeitar o país mas que estão desfalecendo por falta de zelo. Resistência, fé, liberdade … nosso povo moçambicano não pode perder a esperança. Unidos, sejamos as vozes que denunciem esta realidade espessa ao mundo.

* Tatiane Silveira Soares, missionária leiga do Projeto Regional Sul 3 da CNBB em Moçambique.

Fonte: Comire Sul 3 da CNBB

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